enganos

Tinha meia hora entre os dois comboios, deambulou pela plataforma e resolveu descer, passou pelo primeiro café, depois pelo segundo, nenhum tinha imperial, que raio de gente estranha, desceu outro piso, ajeitando o trolley na escada rolante.

O dia tinha sido esgotante, precisava de uma cerveja. Sentou-se na mesa de todos os dias e pediu uma imperial. Viu-a logo depois, a brincar com o copo entre os dedos. A única mulher sentada, a beber uma cerveja. Brincava com o copo com a naturalidade de quem conhece o gesto. Olhou-o nos olhos quando se percebeu observada, ele(?) desviou o olhar para voltar logo em seguida. Havia qualquer coisa nela que o desafiava.

Olhou-o nos olhos e percebeu-lhe o desconforto, os homens são assim, ficam desconcertados com mulheres que parecem seguras. Terminou a cerveja, levantou-se, ajeitou o vestido azul e foi, tinha um comboio à sua espera, que a levaria mais uma vez a lugar nenhum, puxou o trolley segura no gesto e, sentiu-lhe o olhar a queimar a pele.

Ficou a observa-la até se perder na multidão, havia qualquer coisa naquela mulher de vestido azul que o fascinara, talvez a segurança, se ele tivesse coragem, um dia partiria assim…

Faltavam poucos minutos para o comboio, imaginou-o intrigado sem conseguir desviar o olhar, até que um outro vestido se cruzasse, imaginou-o a sentir pena da sua solidão em viagem e castigou a calçada debaixo do seu salto, ferida com essa imagem…