o morto

Acredito que o amor nasce, floresce, cresce, amadurece e, naturalmente um dia morre. Há amores que morrem de velhos, outros por acidente, alguns por tédio e há até os que são assassinados, mas o facto é que morrem. Um dia, acordamos e percebemos sem saber como nem porquê que o amor morreu. O amor, morto, como todos os mortos parece-nos perfeito, mas está morto. O amor, não a habituação, ou a amizade, ou a saudade do que foi. Apenas o amor. A vontade de estar com (que é brutalmente diferente da vontade de ter companhia), a vontade de falar por horas sem que o assunto se acabe, a vontade de nos sentarmos à mesa e que o tempo voe e quando percebemos passaram mais de três horas e de uma garrafa de vinho, o disparar do coração quando o telefone toca, a respiração do outro no nosso pescoço, a gargalhada fácil, o toque da mão que desperta em nós um verdadeiro terramoto, o encontro de almas, a dança dos corpos. O amor. O primeiro pensamento da manhã e o último suspiro antes de adormecer. O amor morre. Algumas pessoas insistem em não ver e mantêm-se agarradas a ele. Não ao amor que já não existe (às vezes nem nunca existiu, apenas havia a ideia dele), mas ao morto. Acontece que por mais que deem ao rabo, mesmo que até consigam por um bocadinho afastar as moscas, não irão nunca conseguir reverter a sua condição de morto e mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos moscas, mais ou menos visíveis, será impossível ignorar que fede!

… então boa Páscoa, que segunda-feira já passou!

Páscoa.

Estou farta de dias comemorativos. Natal, Ano Novo, Aniversário, Páscoa, etc., etc., etc.

Dias em que temos que estar com, dias que devem ser vividos de determinada forma, em que é esperado x e se finge y. Bardamerda para estes dias, felizmente o ano está cheio dos outros dias, os que cedemos a fazer o que desejamos e não o que esperam de nós, felizmente o ano tem muitos mais dos outros dias em que estamos onde for, com quem nos der na bolha, fora deste teatro que não passa de ilusão!

foge cômigo

Sete menos oito, marcava o relógio gigante, redondo, pendurado na estrutura metálica que abraçava a plataforma. Sete menos oito, marcava, enquanto o vento forte o baloiçava arrancando-lhe um gemido metálico. Dolente. Sete menos oito. Ela gostava de oitos, ele, chegou no minuto certo. Visivelmente agitado olhava por cima do ombro, tentando garantir que o seu segredo estava bem guardado, ela… ela apenas o queria a ele, com ou sem segredos. Esperava-o há muito, tanto, que chegou a duvidar se ele chegaria. Levantou-se trémula de emoção, compôs o longo vestido e o pequeno chapéu e acenou-lhe, efusiva na alma, num gesto contido pela mão enluvada. A plataforma mal iluminada estava cheia de homens que partiam para mais uma jornada de trabalho. Alguns já a tinham olhado de soslaio. Não era hora nem local para uma mulher sozinha. Não tinha tido medo, não era mulher de se permitir ter medos, mas o seu coração acalmava e acelerava com a imagem dele, sorriso rasgado e passo firme na sua direção. Primeiro tocaram-se as mãos, depois trocaram o abraço que apenas eles conheciam e, partiram.

Foge cômigo, dissera-lhe em tempos. Assim foi, passavam 8 minutos das sete quando o comboio começou a deslocar-se, primeiro num movimento arrastado, depois numa marcha constante. Sentados frente a frente sorriam. Levavam uma muda de roupa e pouco mais, ele, um bouquet de suspiros, ela… a sabedoria para os libertar.