o morto

Acredito que o amor nasce, floresce, cresce, amadurece e, naturalmente um dia morre. Há amores que morrem de velhos, outros por acidente, alguns por tédio e há até os que são assassinados, mas o facto é que morrem. Um dia, acordamos e percebemos sem saber como nem porquê que o amor morreu. O amor, morto, como todos os mortos parece-nos perfeito, mas está morto. O amor, não a habituação, ou a amizade, ou a saudade do que foi. Apenas o amor. A vontade de estar com (que é brutalmente diferente da vontade de ter companhia), a vontade de falar por horas sem que o assunto se acabe, a vontade de nos sentarmos à mesa e que o tempo voe e quando percebemos passaram mais de três horas e de uma garrafa de vinho, o disparar do coração quando o telefone toca, a respiração do outro no nosso pescoço, a gargalhada fácil, o toque da mão que desperta em nós um verdadeiro terramoto, o encontro de almas, a dança dos corpos. O amor. O primeiro pensamento da manhã e o último suspiro antes de adormecer. O amor morre. Algumas pessoas insistem em não ver e mantêm-se agarradas a ele. Não ao amor que já não existe (às vezes nem nunca existiu, apenas havia a ideia dele), mas ao morto. Acontece que por mais que deem ao rabo, mesmo que até consigam por um bocadinho afastar as moscas, não irão nunca conseguir reverter a sua condição de morto e mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos moscas, mais ou menos visíveis, será impossível ignorar que fede!

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… então boa Páscoa, que segunda-feira já passou!

Páscoa.

Estou farta de dias comemorativos. Natal, Ano Novo, Aniversário, Páscoa, etc., etc., etc.

Dias em que temos que estar com, dias que devem ser vividos de determinada forma, em que é esperado x e se finge y. Bardamerda para estes dias, felizmente o ano está cheio dos outros dias, os que cedemos a fazer o que desejamos e não o que esperam de nós, felizmente o ano tem muitos mais dos outros dias em que estamos onde for, com quem nos der na bolha, fora deste teatro que não passa de ilusão!

hoje é Natal

Hoje é Natal, acho que não passava um Natal “sozinha” desde os meus 19 ou 20 anos. Que é como quem diz, desde sempre. Não sei como se passa um Natal sozinha, mas obviamente também não o posso passar acompanhada…

 Teria aqui sumo pelo menos para 3 sessões de terapia, mas eu deixei de ter tempo e de poder ir à terapia. Ou bem que vou trabalhar e estou longe, ou bem que faço terapia, escolhi comer, ainda que não lhe sinta o sabor… a verdade é que estou cada vez mais triste, cada vez mais deprimida e estou farta de estar triste e deprimida, estou farta de me anular e fingir que não existo, estou farta de respirar baixinho para não fazer barulho, 2017 está ai e, não sei como, mas vou reaprender a ser eu, vou refazer-me, vou impor-me, vou valorizar-me e depois, plena de mim, vou deixar de estar sozinha, eu não gosto de estar sozinha. Chega! Vou encontrar-me ou perder-me, mas quero companhia nessa viagem. 2017 vai ser o “primeiro ano do resto da minha vida” e eu vou ter o que eu quiser!

Para já ainda é 2016, eu ainda durmo pouco, ainda continuo a emagrecer, ainda me sinto miserável e sem paciência para ninguém, ainda me vou sentar mais logo à mesa, olhar para o lado e pensar: “estás sozinha caralho, muito mais do que qualquer uma destas pessoas imagina”, e fingir o melhor que posso e, finjo mal eu sei, mas vou fingir que estou bem, para tentar poupar alguns do que amo e que passam o Natal comigo. Depois há outros que também amo e que não estão comigo, mas que eu não tenho a menor dúvida de que na verdade estão!!!

Hoje é Natal. Oh oh oh. Grande merda! Cagalhão pro Natal!!!

não somos felizes com o que os outros acham que devemos ser

“Eu não estou feliz.”

Esta deve ser das frases mais difíceis de pronunciar. Pelo facto em si que por si só já é doloroso e pelos outros.

“Não estás feliz porquê? Tens tudo!”

Seja lá o que for que tudo queira dizer. Como se estarmos felizes fosse uma ciência exacta e em determinadas condições o tivéssemos que ser. Como se estarmos felizes fosse uma obrigação e não o estarmos uma afronta aos outros e não a nós próprios.

Não me “forcem” a ser feliz à vossa maneira, não me “forcem” a ser quem querem que eu seja, não funciona comigo, aliás, não funciona com ninguém!

vidas

Sexta-feira foi dia de terapia. Falei (muito) das minhas novas “amizades”, de como me sinto um peixe fora de água, de como não temos absolutamente nada em comum nas nossas vidas. Esta semana enquanto ouvia uma a falar do marido e da relação de ambos, como se o que ela descrevia fosse a coisa mais desejada do mundo, percebi, finalmente, que pode não ser a mais desejada, mas é com certeza a mais normal, a mais comum. As pessoas estão juntas por hábito, por comodismo, por necessidade… vivem vidas separadas dentro da mesma casa. Elas em função dos filhos, eles em função dos trabalhos. Elas faltam ao emprego, ruim (que não lhes permite largar os trastes), para tratar das criancinhas doentes, eles, tem as criancinhas lavadas e tratadas quando chegam a casa e o jantar na mesa. Elas, trabalham que nem umas mulas em casa e no trabalho, contentam-se com o que a vida lhes deu sem questionar e vão emburrecendo (e muito, valha-me Deus), com o Goucha ao almoço e a casa dos segredos ao jantar. A conversa varia entre as criancinhas e os trastes, os jantares e almoços programados da semana, a necessidade de ir a Lisboa fazer alguma coisa e a coordenação extraordinária que isso implica, já que elas, todas com carta, nunca conduzem em Lisboa, é muita confusão para as suas cabecitas, essa tarefa fica a cargo do macho, uma espécie de favor que ele lhes faz em troca de nunca ter mudado uma fralda, nem ter levantado o cú da cama para ver porque raio a cria estava a chorar e, essa ida a Lisboa, que tanto pode ser uma consulta como alguma necessidade de uma das crias, de repente fica qualquer coisa memorável, um acontecimento conjunto nas suas vidas separadas. Falamos também do tempo, da facilidade de enxugar a roupa e de quantas pessoas se constiparam em casa, estas são as conversas mais estimulantes e aquelas em que posso participar.

“Esta noite esteve tanto vento que de manhã tinha a roupa quase seca.”

“Pois foi.”

Depois do relato detalhado a Psicóloga olhou para mim e perguntou:

“A Marta queria a vida que elas têm?”

“Decididamente não! Acontece que elas dormem todas acompanhadas, eu não… o que faz com que talvez também não queira a minha.”