marisa

Olho-te nas minhas costas. Murmuras um: “amo-te mesmo caralho!”. No segundo seguinte cerras os dentes e viajas, dentro e fora de mim. Lanço-te um olhar lascivo, deixo-te concentrado no que só tu me sabes fazer e, observo-a a ela. Está mergulhada em nós. O nosso brinquedo. É um investimento de muitas semanas. Foi observada, medida, estudada ao mais ínfimo detalhe e agora temo-la aqui. Ajoelhada perante algo que não entende mas a excita. Não tarda, sei que nos iremos dedicar a ela. Desejo-a tanto ou mais do que tu. Agora que penso nisso, qual de nós teve esta ideia?! Não importa.

Volto atrás.

É quarta-feira, e como em tantas outras quartas-feiras encontramo-nos ao final do dia. Tinhamo-la encontrado umas semanas antes. Seguiu-se o estudo da presa, todos os dias que vinhas encontrar-te comigo passavas lá e compravas cerveja para nós. A conversa com ela foi fácil. Tu és giro e esperto, ela… vende cervejas e combustível a camionistas. Foi tão fácil destacares-te. Casada. Perfeito! Mais tarde não nos dará problemas. Mas adiante, é quarta-feira, eu estou de férias, tu a trabalhar, encontramo-nos no final do dia. Quando entro na área de serviço tu já estás sentado com uma cerveja na mão e falas animadamente com ela. Eu entro, dirijo-me ao balcão e peço-lhe uma Sagres. Mini. Depois, no alto do meu salto, vou até à tua mesa, deslizo a minha língua para dentro da tua boca e sento-me. Ela, agora calada, olha-me perplexa. Fito-a nos olhos e sorrio-lhe enquanto debaixo da mesa a minha mão desliza pelo teu sexo. Vejo-a suster a respiração incapaz de desviar o olhar e agarro-o com firmeza. A partir daí tudo é simples, apanhamo-la por volta das 10.

Volto.

Fecho os olhos e deixo escapar um gemido, extasiada com a língua que me invade. Não penso em mais nada!

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foge cômigo

Sete menos oito, marcava o relógio gigante, redondo, pendurado na estrutura metálica que abraçava a plataforma. Sete menos oito, marcava, enquanto o vento forte o baloiçava arrancando-lhe um gemido metálico. Dolente. Sete menos oito. Ela gostava de oitos, ele, chegou no minuto certo. Visivelmente agitado olhava por cima do ombro, tentando garantir que o seu segredo estava bem guardado, ela… ela apenas o queria a ele, com ou sem segredos. Esperava-o há muito, tanto, que chegou a duvidar se ele chegaria. Levantou-se trémula de emoção, compôs o longo vestido e o pequeno chapéu e acenou-lhe, efusiva na alma, num gesto contido pela mão enluvada. A plataforma mal iluminada estava cheia de homens que partiam para mais uma jornada de trabalho. Alguns já a tinham olhado de soslaio. Não era hora nem local para uma mulher sozinha. Não tinha tido medo, não era mulher de se permitir ter medos, mas o seu coração acalmava e acelerava com a imagem dele, sorriso rasgado e passo firme na sua direção. Primeiro tocaram-se as mãos, depois trocaram o abraço que apenas eles conheciam e, partiram.

Foge cômigo, dissera-lhe em tempos. Assim foi, passavam 8 minutos das sete quando o comboio começou a deslocar-se, primeiro num movimento arrastado, depois numa marcha constante. Sentados frente a frente sorriam. Levavam uma muda de roupa e pouco mais, ele, um bouquet de suspiros, ela… a sabedoria para os libertar.

dias de Outono

Estacionei  nos restauradores sem problemas, há dias assim, em que o universo se conjuga e tudo parece saído de um guião onde nada pode correr mal. A luz de Outubro filtrada pelas árvores ainda verdes dão a tudo um tom amarelo esverdeado de fim de dia, ou talvez seja a cor das lentes dos óculos, não é importante, o importante é que ao sair do carro não parei na montra da Rosa Clará, não larguei umas pinguinhas pelos vestidos e até o arrumador me deixou estacionar em paz sem perder tempo. O que interessa é que as ilusões que se foram com a vida e os dias corridos, deram lugar a outras, mais físicas e palpáveis. O que importa é que desci o pouco que faltava da Avenida até ao Rossio e daí subi, sempre em passo acelerado até ao Largo do Carmo. Estava calor. Eu só queria frio e aconchego e… depois, muito suor.

Ela estava sentada numa das esplanadas, a do quiosque, à sua frente um copo de gin. Sorri para mim pelo cliché. Nunca gostei de modas, nem de gin. Abri um sorriso, pedi licença e sentei-me.

“Uma super bock por favor” – pedi passados uns minutos, depois de ter trocado com ela meia dúzia de palavras e a ter catalogado como pouco inteligente. Bonita sim, muito bonita. Pescoço comprido, lábios carnudos, olhos claros. Talvez uns 10 cm mais alta do que eu, curvas generosas, sei que gostas disso… mas sem duvida não seria qualquer tipo de ameaça para mim. Elogiei-a, mordisquei o lábio inferior enquanto a namorisquei e olhei para o relógio no meu pulso direito, estava na hora de sair dali. Tu estarias à nossa espera em menos de uma hora, no quarto cor-de-rosa, chamamos-lhe assim, alugamo-lo por uma noite, mas ficamos apenas umas horas, nunca a noite.

Paguei o gin e a super bock, combinei esperá-la no inicio da Avenida e daí seguimos. Mal arrancámos liguei-te, estava ansiosa por te contar que a minha mão tinha deslizado pelo meio da saia dela. Queria que soubesses que a senti quente…

Estacionei ao lado dela, atrás do teu carro, debaixo da amoreira. Bati três vezes e abriste a porta. Atrás de ti podia ver três copos de vinho. Beijei-te. Amo-te e sei que te terei mais tarde, depois dela ir embora, mas para já sei que a minha e a tua prioridade é a de a…!

janelas fechadas

Estaciono o carro em frente aos prédios brancos e volto a concentrar-me na fita de estore, rasgada, que espreita pelo cimo do estore fechado na janela do rés-do-chão, três metros à esquerda do sítio onde religiosamente te espero.

Os dias estão finalmente a refrescar, visto o casaco que vinha no banco do pendura e abro um pouco da janela. Preciso de um cigarro enquanto te espero e me penso. Hoje discutimos, o motivo de sempre. Acendo o cigarro e dou o primeiro trago, encho os pulmões de neblina, em sintonia com o cérebro.

Nunca vi o estore aberto e a fita, a implorar substituição, sempre me espreitou, dominante na sua fraqueza. Será que não vive ali ninguém ou terão desistido simplesmente da claridade? Às vezes fazemos isso, temos estores avariados que por preguiça ou habituação deixamos de abrir, eu já tive um assim, o meu não fechava, demorei semanas a habituar-me a dormir de estore aberto e depois, muitos meses depois, quando outra pessoa tomou a iniciativa de o arranjar, senti-me de alguma forma destituída de uma claridade que me mantinha alerta.

Mais um trago e um fechar de olhos cansado, é tarde diz a rádio, mesmo antes de me brindar com Joss Stone. “I’ve got a right to be wrong, my mistakes will make me strong, I’m stepping out into the great unknown, I’m feeling wings though I’ve never flown”.

Tu chegas 3 cigarros depois, abres a porta, eu entro e esqueço-me das janelas fechadas e dos estores que não funcionam até amanhã, por hoje vou adormecer aconchegada em ti.

agora não

Sirvo-me de mais uma cerveja e permito ao corpo o contorcer-se, não de dores, que o corpo não me dói, talvez seja a alma, ou simplesmente a maleita que consigo apalpar debaixo dos meus dedos e que não sei onde nasceu. Maligno. Não! Talvez seja apenas o álcool. Um devaneio que me chegou depois do sol se pôr. Talvez seja mesmo o que sinto escondido na pele, debaixo dos meus dedos… talvez seja a luta entre a morte e a vida… posso falar de morte?! E de vida(?!), posso ainda permitir-me sonhar com a vida?! 50 anos – ouço – é tão novo – dizem. Calem-se caralho!, tragam mais uma cerveja e deixem-me o corpo entorpecer. 50 anos. Foda-se! Já?! Logo agora que me apaixonei, que sou um miúdo outra vez… 50 anos… não!!! Tenho 15 e vou a caminho da escola, sem massas malignas no corpo e sem qualquer espécie de mágoa. Agora não, que estou tão novo… Foda-se!!!

sms

As letras brancas no fundo azul pareciam querer galgar o monitor. Conseguia lê-las ao som da voz dela.

Hoje é um daqueles dias em que queria falar contigo noite afora. Baixinho. Concentrada nos teus olhos. Redescobrir o teu rosto na ponta dos meus dedos, na palma da minha mão… beijar-te a espaços, engolindo-te as palavras que quisesse só minhas. Hoje, a cada “amo-te” que escutasse de ti, como o que sussurraste durante a tarde enquanto conquistavas o meu corpo rendido, permitir-me-ia, libertar uma lágrima de emoção, sem medo que a confundisses com dor e, se me perguntasses “estás bem amor?!”, como fazes tantas e tantas vezes, eu responder-te-ia “tão bem como nunca imaginei na vida poder estar!”

Leu-a mais uma vez, deu à chave e arrancou, aparentemente com toda a calma do mundo, mas sabia, pelo nó que sentia na garganta, que a sua vida nunca mais seria a mesma!

margarida #14

Para o Rodrigo a porta batida nas suas costas, foi como se ela lhe enfiasse a mão pela boca e com ela lhe arrancasse o coração, rasgando tudo à sua passagem. Um pedaço seu ficou ali, esmagado naquela porta atirada pela raiva ou pela dor, não percebia.

Havia nela muito que não percebia. Não duvidava do seu amor, isso não, sentira-o tantas vezes no seu olhar pousado em si, no sorriso das coisas pequenas e brutalmente importantes que tinham partilhado… o seu amor reconhecera-o em cada vez que fizeram amor e em cada vez que se devoraram de forma urgente, quase animal. O que ele não podia entender era o porquê, de apesar desse amor do qual ele não duvidava, ela não o querer, o porquê de não estar disposta a aproximar-se dele, a deixá-lo entrar verdadeiramente na sua vida. O que o esmagava era essa incompreensão, quando para ele, bastava um simples gesto, um piscar de olho, uma palavra, um suspiro. O que o matava, a pedaços, era saber que mesmo tendo o seu amor, ainda assim não a teria…

Na verdade antes dela tinha amado apenas uma vez, tudo mais tinham sido vontades e, tinham sido algumas, foi por uma dessas vontades que perdeu a mulher com quem iria casar. Um sacana, era assim que costumava pensar em si e agora, perdido, desconhecia-se naquele registo, naquela dor. Não que os sacanas não sofram, só quem nunca o foi, pode ignorar a dor “dos vilões”, a que não se justifica, a que ninguém entende, a que os anula. Só quem nunca o foi desconhece o vazio e a solidão que os preenche em dias cheios de coisa nenhuma. Não que tivesse sido fácil ter vivido a vida inteira a reconhecer-se, muitas vezes até brutalmente pior do que na realidade o era, não que não tivesse sofrido, mas desconhecia completamente aquela dor castradora que o acompanhava. Precisava de tempo, tempo que lhe permitisse respirar outra vez, acalmar-lhe a mágoa que sentia a esmagar-lhe o peito. Também ele sabia de fugas em frente… talvez as almas se procurem e se reconheçam…