foge cômigo

Sete menos oito, marcava o relógio gigante, redondo, pendurado na estrutura metálica que abraçava a plataforma. Sete menos oito, marcava, enquanto o vento forte o baloiçava arrancando-lhe um gemido metálico. Dolente. Sete menos oito. Ela gostava de oitos, ele, chegou no minuto certo. Visivelmente agitado olhava por cima do ombro, tentando garantir que o seu segredo estava bem guardado, ela… ela apenas o queria a ele, com ou sem segredos. Esperava-o há muito, tanto, que chegou a duvidar se ele chegaria. Levantou-se trémula de emoção, compôs o longo vestido e o pequeno chapéu e acenou-lhe, efusiva na alma, num gesto contido pela mão enluvada. A plataforma mal iluminada estava cheia de homens que partiam para mais uma jornada de trabalho. Alguns já a tinham olhado de soslaio. Não era hora nem local para uma mulher sozinha. Não tinha tido medo, não era mulher de se permitir ter medos, mas o seu coração acalmava e acelerava com a imagem dele, sorriso rasgado e passo firme na sua direção. Primeiro tocaram-se as mãos, depois trocaram o abraço que apenas eles conheciam e, partiram.

Foge cômigo, dissera-lhe em tempos. Assim foi, passavam 8 minutos das sete quando o comboio começou a deslocar-se, primeiro num movimento arrastado, depois numa marcha constante. Sentados frente a frente sorriam. Levavam uma muda de roupa e pouco mais, ele, um bouquet de suspiros, ela… a sabedoria para os libertar.

vidas

Sexta-feira foi dia de terapia. Falei (muito) das minhas novas “amizades”, de como me sinto um peixe fora de água, de como não temos absolutamente nada em comum nas nossas vidas. Esta semana enquanto ouvia uma a falar do marido e da relação de ambos, como se o que ela descrevia fosse a coisa mais desejada do mundo, percebi, finalmente, que pode não ser a mais desejada, mas é com certeza a mais normal, a mais comum. As pessoas estão juntas por hábito, por comodismo, por necessidade… vivem vidas separadas dentro da mesma casa. Elas em função dos filhos, eles em função dos trabalhos. Elas faltam ao emprego, ruim (que não lhes permite largar os trastes), para tratar das criancinhas doentes, eles, tem as criancinhas lavadas e tratadas quando chegam a casa e o jantar na mesa. Elas, trabalham que nem umas mulas em casa e no trabalho, contentam-se com o que a vida lhes deu sem questionar e vão emburrecendo (e muito, valha-me Deus), com o Goucha ao almoço e a casa dos segredos ao jantar. A conversa varia entre as criancinhas e os trastes, os jantares e almoços programados da semana, a necessidade de ir a Lisboa fazer alguma coisa e a coordenação extraordinária que isso implica, já que elas, todas com carta, nunca conduzem em Lisboa, é muita confusão para as suas cabecitas, essa tarefa fica a cargo do macho, uma espécie de favor que ele lhes faz em troca de nunca ter mudado uma fralda, nem ter levantado o cú da cama para ver porque raio a cria estava a chorar e, essa ida a Lisboa, que tanto pode ser uma consulta como alguma necessidade de uma das crias, de repente fica qualquer coisa memorável, um acontecimento conjunto nas suas vidas separadas. Falamos também do tempo, da facilidade de enxugar a roupa e de quantas pessoas se constiparam em casa, estas são as conversas mais estimulantes e aquelas em que posso participar.

“Esta noite esteve tanto vento que de manhã tinha a roupa quase seca.”

“Pois foi.”

Depois do relato detalhado a Psicóloga olhou para mim e perguntou:

“A Marta queria a vida que elas têm?”

“Decididamente não! Acontece que elas dormem todas acompanhadas, eu não… o que faz com que talvez também não queira a minha.”

8 de Março

Não gosto particularmente de dias de qualquer coisa, seja o que for o qualquer coisa. Parece-me que não deveríamos ter dias marcados para, todos os dias deveriam ser dias dos que amamos e dias para celebrarmos o que acreditamos. O dia da Mulher não é excepção, de alguma forma considero-o até ofensivo. Que raio, precisar enquanto Mulher de um dia que me celebre, que defenda os meus direitos e a minha diferença (sim diferença, eu não quero ser igual, eu sou única, sou melhor e pior, mas única, em momento algum quis ser igual, eu quero é ter os mesmos direitos, as mesmas oportunidades) para quê?! O dia da Mulher, é um dia que me demonstra não a diferença dentro da justiça, mas a diferença na injustiça, o dia que me recorda o tanto caminho que há ainda por palmilhar até que isso aconteça. O dia que me recorda as Bravas que me antecederam e que tornaram estas minhas palavras, desajeitadas e até ridículas, possíveis. O dia da Mulher é um lembrete de uma afronta, que dificilmente veremos resolvida nos nossos dias, de uma luta longe do fim, de uma guerra feita de muitas batalhas, mas não uma guerra perdida. O dia da Mulher lembra-nos que ainda que possamos morrer sem celebrar vitória, permitiremos num amanhã, que outras vençam e que um dia este 8 de Março seja obsoleto e desprovido de qualquer outra razão que não a histórica.

avó Mariana

Não foste o meu primeiro amor, mas estou certa de que serás o último. Enquanto encosto a cabeça no teu ombro, os teus braços me aconchegam o longo vestido branco e me conduzem pela melodia, recordo a avó Mariana e os Verões passados com ela na casa velha.
Depois do pequeno-almoço abria-se a porta pesada de madeira que dava para as escadas de pedra e eu estava livre para me dedicar à caça das osgas que espreitavam o sol nas gretas das pedras. Munida de uma arma complexa, um pau fininho, tentava inutilmente trespassá-las. Quem as devia caçar era o Pantufa, o gato, que eu batizei em homenagem ao cão da Anita, mas o preguiçoso preferia deitar-se ao sol na escada, qual osga, ou fugir de mim. Portanto, só eu podia proteger a avó Mariana do que ela apelidava de “bichos nojentos”.
As tardes eram passadas dentro de portas. O corredor largo que ligava as diversas divisões era o meu preferido. O velho soalho de madeira, ondulado pelos anos, movimentava-se e gemia debaixo dos meus pés e tanto podia correr-lhe em cima, desaforada, como rodopiar, angelical, ao som da música que chegava da sala verde onde a avó Mariana bordava junto à janela. Do avô Ernesto não tinha memória. Morrera pouco depois de eu nascer.
Às vezes ao final da tarde enquanto bebia chá da lúcia lima que vivia no canteiro ao lado da escada e o seu olhar se perdia para lá da janela adornada pelo grosso cortinado verde, vislumbrava-lhe uma pequena lágrima.
“Está triste avó?” – Perguntava-lhe a meio de um rodopio.
“Não Joaninha, estava a ver-te dançar e a lembrar-me do avô.” – Respondia-me enquanto se levantava e vinha dançar comigo. – “Estás a ficar uma mulherzinha. Um dia destes vais apaixonar-te.”
“E vou casar-me e ser muito feliz como os avós?”
“Claro que sim minha filha, o amor é simples, só precisas de escolher alguém com quem gostes sempre de dançar.”

acho que já escrevi isto antes

entendo?

Não te entendo, quando a troco de nada, que bem pode ser tudo, paras e pensas ou pensas e paras e vais e ficas e voltas e vens. Rodeias-me e calas e paras e pensas e pensas e pensas… e não falas!
Não me entendes, quando a troco de nada, que para mim bem pode ser tudo, estremeço e grito e falo e não penso e não paro e não vejo e não vou e não fico! Enlaço-te, desfaço-te e sigo e não paro e não calo e não penso e não penso e não penso… não consigo!
E só assim nos entendemos, no completar dos movimentos, dos momentos… só assim, porque não paro e não penso e não calo, só assim te sigo e consigo ouvir o que gritas quando calas e falas… só contigo!

(não sei escrever-te, és mais, muito mais… o meu pilar, o meu amigo, o meu amante, uma réstia de sanidade, um porto de abrigo, e eu, tonta, escrevo-te pouco… não consigo)