o morto

Acredito que o amor nasce, floresce, cresce, amadurece e, naturalmente um dia morre. Há amores que morrem de velhos, outros por acidente, alguns por tédio e há até os que são assassinados, mas o facto é que morrem. Um dia, acordamos e percebemos sem saber como nem porquê que o amor morreu. O amor, morto, como todos os mortos parece-nos perfeito, mas está morto. O amor, não a habituação, ou a amizade, ou a saudade do que foi. Apenas o amor. A vontade de estar com (que é brutalmente diferente da vontade de ter companhia), a vontade de falar por horas sem que o assunto se acabe, a vontade de nos sentarmos à mesa e que o tempo voe e quando percebemos passaram mais de três horas e de uma garrafa de vinho, o disparar do coração quando o telefone toca, a respiração do outro no nosso pescoço, a gargalhada fácil, o toque da mão que desperta em nós um verdadeiro terramoto, o encontro de almas, a dança dos corpos. O amor. O primeiro pensamento da manhã e o último suspiro antes de adormecer. O amor morre. Algumas pessoas insistem em não ver e mantêm-se agarradas a ele. Não ao amor que já não existe (às vezes nem nunca existiu, apenas havia a ideia dele), mas ao morto. Acontece que por mais que deem ao rabo, mesmo que até consigam por um bocadinho afastar as moscas, não irão nunca conseguir reverter a sua condição de morto e mais cedo ou mais tarde, com mais ou menos moscas, mais ou menos visíveis, será impossível ignorar que fede!

foge cômigo

Sete menos oito, marcava o relógio gigante, redondo, pendurado na estrutura metálica que abraçava a plataforma. Sete menos oito, marcava, enquanto o vento forte o baloiçava arrancando-lhe um gemido metálico. Dolente. Sete menos oito. Ela gostava de oitos, ele, chegou no minuto certo. Visivelmente agitado olhava por cima do ombro, tentando garantir que o seu segredo estava bem guardado, ela… ela apenas o queria a ele, com ou sem segredos. Esperava-o há muito, tanto, que chegou a duvidar se ele chegaria. Levantou-se trémula de emoção, compôs o longo vestido e o pequeno chapéu e acenou-lhe, efusiva na alma, num gesto contido pela mão enluvada. A plataforma mal iluminada estava cheia de homens que partiam para mais uma jornada de trabalho. Alguns já a tinham olhado de soslaio. Não era hora nem local para uma mulher sozinha. Não tinha tido medo, não era mulher de se permitir ter medos, mas o seu coração acalmava e acelerava com a imagem dele, sorriso rasgado e passo firme na sua direção. Primeiro tocaram-se as mãos, depois trocaram o abraço que apenas eles conheciam e, partiram.

Foge cômigo, dissera-lhe em tempos. Assim foi, passavam 8 minutos das sete quando o comboio começou a deslocar-se, primeiro num movimento arrastado, depois numa marcha constante. Sentados frente a frente sorriam. Levavam uma muda de roupa e pouco mais, ele, um bouquet de suspiros, ela… a sabedoria para os libertar.

parabéns

Hoje farias 41 anos e, eu que me lembro sempre dos teus anos, não te daria os parabéns se pudesse… mas, dou-tos assim, como se isto agora valesse de alguma merda!

Encontramo-nos lá para 2000 e o que for…

 

“No dia 4 de junho de 2086
Talvez possamos sentar nos a falar de que?
…não sei

Do que fizemos da vida
se a vivemos bem ou mal
no dia de 4 de junho de 2000 e 80 e tal

No dia 13 de março de 2000 e o que quiseres
podes ser tua a marcar
podes ser tu a escolher
talvez possamos deitar-nos
a fazer não sei o que
talvez amor com a alma, que o corpo já não se vê

Eu sei já percebi acabou
eu sei é sempre assim mas ficou

Aquilo que te dei
e o que me deste a mim
também o que não dei
foi assim…

Se achares que é tarde demais
pode ser quando poderes
por mim é já está noite
num jardim de mal-me-queres

Ou no meio da avenida
deserta ou com multidão
já pressenti o momento
já quebrei de ilusão

Eu sei já percebi acabou
eu sei é sempre assim, mas ficou

Aquilo que te dei
e o que me deste a mim
também o que não dei
foi assim…

A 29 de agosto de 2000 e o que entenderes
talvez possamos olhar-nos como da primeira vez

contar a historia de novo
mudar-lhe só o final
se não poderes nessa data pode ser noutra, que tal
se não poderes nessa data pode ser noutra, que tal…”

janelas fechadas

Estaciono o carro em frente aos prédios brancos e volto a concentrar-me na fita de estore, rasgada, que espreita pelo cimo do estore fechado na janela do rés-do-chão, três metros à esquerda do sítio onde religiosamente te espero.

Os dias estão finalmente a refrescar, visto o casaco que vinha no banco do pendura e abro um pouco da janela. Preciso de um cigarro enquanto te espero e me penso. Hoje discutimos, o motivo de sempre. Acendo o cigarro e dou o primeiro trago, encho os pulmões de neblina, em sintonia com o cérebro.

Nunca vi o estore aberto e a fita, a implorar substituição, sempre me espreitou, dominante na sua fraqueza. Será que não vive ali ninguém ou terão desistido simplesmente da claridade? Às vezes fazemos isso, temos estores avariados que por preguiça ou habituação deixamos de abrir, eu já tive um assim, o meu não fechava, demorei semanas a habituar-me a dormir de estore aberto e depois, muitos meses depois, quando outra pessoa tomou a iniciativa de o arranjar, senti-me de alguma forma destituída de uma claridade que me mantinha alerta.

Mais um trago e um fechar de olhos cansado, é tarde diz a rádio, mesmo antes de me brindar com Joss Stone. “I’ve got a right to be wrong, my mistakes will make me strong, I’m stepping out into the great unknown, I’m feeling wings though I’ve never flown”.

Tu chegas 3 cigarros depois, abres a porta, eu entro e esqueço-me das janelas fechadas e dos estores que não funcionam até amanhã, por hoje vou adormecer aconchegada em ti.

um sítio onde eu possa não ser eu

A tarde tem sido passada a ver a Anatomia de Grey, tenho os olhos inchados de tanta choradeira, séries passadas que não vi, porque a minha vida já estava de pernas para o ar e eu ainda não sabia, mas o importante é que algures ouvi uma frase que me fez pensar.

“Precisas de um sítio onde possas não ser tu… esse sítio sou eu…”

Deu-se em mim uma espécie de epifania, o que eu preciso é de um sítio onde eu possa não ser eu, porque ser eu é esgotante e doloroso, procurei a vida inteira por sítios onde possa ser eu… mas eu já o sou, seja eu Marta ou Helena, seja eu a real ou a fantasiada, sou sempre eu, extenuante… o que eu preciso é de um par de braços que sabendo quem sou, me permitam chegar a casa e descansar, não ser eu, porque ser eu é muito mais do que o que eu posso aguentar a tempo inteiro, preciso de descansar de ser eu, preciso de baixar as armas e render-me, na certeza de que passadas umas horas estarei de volta a mim, de onde me será sempre impossível partir, mas que inevitavelmente me fará sempre ter vontade de descansar. Esses braços, são os teus… seja lá onde for que tu estejas, sei que serás perfeito para mim, estou aqui, à espera que chegues, na ânsia de te receber, para que sejas no aconchego de um abraço, tudo o que me faz falta, um sítio onde sem a menor dúvida sobre quem sou eu possa não ser eu…

sms

As letras brancas no fundo azul pareciam querer galgar o monitor. Conseguia lê-las ao som da voz dela.

Hoje é um daqueles dias em que queria falar contigo noite afora. Baixinho. Concentrada nos teus olhos. Redescobrir o teu rosto na ponta dos meus dedos, na palma da minha mão… beijar-te a espaços, engolindo-te as palavras que quisesse só minhas. Hoje, a cada “amo-te” que escutasse de ti, como o que sussurraste durante a tarde enquanto conquistavas o meu corpo rendido, permitir-me-ia, libertar uma lágrima de emoção, sem medo que a confundisses com dor e, se me perguntasses “estás bem amor?!”, como fazes tantas e tantas vezes, eu responder-te-ia “tão bem como nunca imaginei na vida poder estar!”

Leu-a mais uma vez, deu à chave e arrancou, aparentemente com toda a calma do mundo, mas sabia, pelo nó que sentia na garganta, que a sua vida nunca mais seria a mesma!