hoje é Natal

Hoje é Natal, acho que não passava um Natal “sozinha” desde os meus 19 ou 20 anos. Que é como quem diz, desde sempre. Não sei como se passa um Natal sozinha, mas obviamente também não o posso passar acompanhada…

 Teria aqui sumo pelo menos para 3 sessões de terapia, mas eu deixei de ter tempo e de poder ir à terapia. Ou bem que vou trabalhar e estou longe, ou bem que faço terapia, escolhi comer, ainda que não lhe sinta o sabor… a verdade é que estou cada vez mais triste, cada vez mais deprimida e estou farta de estar triste e deprimida, estou farta de me anular e fingir que não existo, estou farta de respirar baixinho para não fazer barulho, 2017 está ai e, não sei como, mas vou reaprender a ser eu, vou refazer-me, vou impor-me, vou valorizar-me e depois, plena de mim, vou deixar de estar sozinha, eu não gosto de estar sozinha. Chega! Vou encontrar-me ou perder-me, mas quero companhia nessa viagem. 2017 vai ser o “primeiro ano do resto da minha vida” e eu vou ter o que eu quiser!

Para já ainda é 2016, eu ainda durmo pouco, ainda continuo a emagrecer, ainda me sinto miserável e sem paciência para ninguém, ainda me vou sentar mais logo à mesa, olhar para o lado e pensar: “estás sozinha caralho, muito mais do que qualquer uma destas pessoas imagina”, e fingir o melhor que posso e, finjo mal eu sei, mas vou fingir que estou bem, para tentar poupar alguns do que amo e que passam o Natal comigo. Depois há outros que também amo e que não estão comigo, mas que eu não tenho a menor dúvida de que na verdade estão!!!

Hoje é Natal. Oh oh oh. Grande merda! Cagalhão pro Natal!!!

inícios

Hoje estou assim, com o pulmão cheio de ar e de vontade de respirar, com esperança pela primeira vez em muito tempo e, por momentos feliz, muito feliz. Estou também ansiosa e amedrontada, os recomeços são difíceis, apesar de tão bons… e sim, estou a recomeçar. Segunda-feira começo uma nova aventura, nova cidade, novas pessoas… muitos quilómetros, uma aventura com prazo de validade, 6 meses… e depois (?!), que importa se irá acabar (?!), por agora eu só quero saber de inícios!

castanhas

Hoje foi dia de magusto. Muitas mesas cheias de doces e frutos secos, muitas castanhas assadas, muitas gargalhadas e muita correria.

Eu devia sentir-me feliz, mas não sinto, a verdade é que tudo me fere. Comi meia dúzia de castanhas e refugiei-me a um canto. Não tardou que a Adriana e a Diana aparecessem abraçadas à minha frente.

“O que é que se passa consigo? Está triste?”

Elas ainda nem tinham terminado a frase e eu já tinha as lágrimas a caírem-me cara abaixo.

“Um bocadinho, mas já passa.”

“É o quê? Está preocupada com a sua filha?” – Perguntou-me uma delas.

“Não querida, eu não tenho filha.”

“ Não tem filhos?!” – Perguntou-me a outra incrédula.

“Não. Não tenho filhos.”

“Então chateou-se com o seu marido.” – Continuou com ar de quem matou a charada e me descobriu a tristeza.

“Não amor, também não tenho marido.”

Olharam-me as duas com os olhos carregados de pena, nem filhos nem marido, que merda de vida teria sido a minha. Naturalmente foi a que eu escolhi e com franqueza não a lamento, gosto dela, mas esta experiência tem sido também ela uma terapia, que me obriga a pensar muito.

“Posso pedir-vos que não contem que eu estou assim triste? Fica um segredo só nosso está bem?”

“Está bem, mas pense noutras coisas, para se distrair.”

Prometi que sim, pensaria, pedi-lhes que fossem brincar e elas assim o fizeram. Passados uns minutos estavam de volta. Sorriso rasgado e nas mãos dois copos, um cheio de castanhas e outro para metermos as cascas.

“Quando alguém está triste devemos fazer assim, distrai-la.”

Agradeci, quase solucei e ficámos ali as três a comer castanhas. Cada vez mais acho que sou como o Pedro, o meu problema não são as crianças, eu não gosto mesmo é de pessoas!

o Pedro que não gosta de pessoas

Depois do recreio do almoço muitos sentam-se numa das minhas cadeiras da “enfermaria”, seja porque efectivamente se magoaram, ou porque simplesmente não lhes apetece voltar para a sala.

Hoje não foi excepção. Um dos meus “clientes” foi um miúdo pequeno, de olhos grandes e tristes, disse-me cabisbaixo que tinha magoado o joelho. Sentei-o numa das cadeiras vazias, fui buscar gelo e tentei perceber se a coisa era a sério ou se era fita. Meti conversa, nada. Nem um sorriso, nem um levantar de olhos.

“Como é que te chamas?”

“Pedro.”

“Olá Pedro, eu sou a Marta.” – Nada. – “Dói-te muito?” – Abanou a cabeça que não. – “Estás triste?” -Voltou a abanar a cabeça que não. – “Conta-me, o que se passa contigo?” – Olhou-me pelo canto do olho.

“Nada. Só não gosto é de pessoas.” – Apeteceu-me gargalhar enquanto ele continuava – “Bom, gosto dos meus pais, da minha família e dos meus amigos.”

“Posso contar-te um segredo?” – Olhou-me pela primeira vez, curioso. – “Prometes que não contas a ninguém?” – Abanou a cabeça que sim – “Eu também não!”

Conclusão da história, roubei um sorriso rasgado e uma gargalhada ao “Pedro que não gosta de pessoas”, que foi a coisa boa do meu dia e eu que achava que não gostava de crianças, afinal não gosto é de pessoas, às crianças às vezes roubam-se sorrisos e ganham-se dias…