figos

– Quando é que vamos aos figos?
Levantei os olhos do chão, arregalados de espanto.
– Como é que soubeste?
Não me respondeu, continuou a sorrir-me e sentou-se no chão ao meu lado. Rodei o corpo na sua direcção ainda incrédula. Deixei a mão seguir na direcção do seu cabelo e contemplei-o, enquanto o perdia entre os dedos. Tinha o cabelo grisalho. Nunca o tinha visto assim, na forma como o via, ou não via, o seu cabelo sempre se mantivera farto, brilhante, cor de mel. Permiti-me mergulhar novamente nele… estava definitivamente cravejado de brancas, podia senti-las nos dedos, mais espessas, fortalecidas pela vida, emolduradas pelo doce do dourado.
– Como é que soubeste?! – Insisti.
Gargalhou.
Tinha-o comigo há tanto tempo, que algures pelo caminho, fosse lá porque fosse deixei de o ver. Não deixei de o amar, sabia-o em mim, simplesmente algures os meus olhos ficaram com uma imagem congelada pelo tempo. Poderá ter sido a dormência dos dias. O cansaço. O som da TV. O picar cebola. A neblina da estrada. Poderá ter sido apenas o seguir da vida, do dia de hoje que sucede ao de ontem, que sucedeu ao de anteontem, que sucedeu ao de antes de anteontem… não deixei de o amar, apenas deixei de o ver.
Durante a noite sonhei que nunca mais iríamos aos figos. Um misto de presságio e de alerta. Senti-me perdida, despojada de algo fundamental… e agora ele estava ali, como se pudesse ainda adivinhar-me, a mim, que lhe desconhecia as brancas…
– Como?!
Ele voltou a sorrir-me enquanto me aconchegava nos seus braços como fazia durante o meu sono.
– Ouvi-te!

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